
Uma criança que empilha blocos até a torre cair está testando equilíbrio, peso e causa e efeito. Outra que brinca de mercadinho está lidando com números, com regras de troca e com a negociação com o colega. Às vésperas de 12 de outubro, quando o país celebra o Dia das Crianças, vale olhar para além dos presentes e lembrar a importância do brincar na aprendizagem: brincar não é o intervalo entre as coisas sérias, é uma das principais formas pelas quais a criança entende o mundo.
Uma data com quase um século
A comemoração no Brasil foi instituída pelo Decreto 4.867, de 5 de novembro de 1924, assinado pelo presidente Arthur Bernardes a partir de proposta do deputado federal Galdino do Valle Filho. O texto fixou 12 de outubro como o dia da festa da criança em todo o território nacional. A data ganhou força comercial décadas depois, mas a ideia original era chamar atenção para a infância e seus cuidados.
“A pesquisa em desenvolvimento infantil costuma descrever três dimensões que o brincar mobiliza ao mesmo tempo..”
O que acontece quando a criança brinca
A pesquisa em desenvolvimento infantil costuma descrever três dimensões que o brincar mobiliza ao mesmo tempo.
- Cognitiva: ao montar, classificar, contar, construir e inventar, a criança exercita atenção, memória, raciocínio lógico e resolução de problemas.
- Social: jogos com outras crianças exigem esperar a vez, combinar regras, aceitar a derrota e negociar papéis. São aprendizagens de convivência que nenhuma explicação substitui.
- Emocional: no faz de conta, a criança encena situações que a preocupam, como a ida ao médico ou a chegada de um irmão, e elabora medos e frustrações em um ambiente seguro.
Há ainda o corpo. Correr, pular, subir e se equilibrar desenvolvem coordenação motora ampla, enquanto recortar, desenhar e encaixar peças pequenas trabalham a coordenação fina, necessária mais tarde para a escrita.
Brincar livre e brincar dirigido
Especialistas distinguem dois tipos de brincadeira, ambos importantes. O brincar livre é aquele em que a criança decide o que fazer, com quais materiais e por quanto tempo. É nele que aparecem a criatividade, a autonomia e a capacidade de se ocupar sem depender de estímulo externo.
O brincar dirigido tem uma intenção definida por um adulto: um jogo de memória para trabalhar atenção, uma brincadeira de roda para ensinar ritmo, um jogo de tabuleiro para praticar contagem. Ele ajuda a introduzir conteúdos e regras, mas perde força quando ocupa todo o tempo da criança.
O equilíbrio entre os dois costuma ser o melhor caminho. Uma agenda cheia de atividades organizadas deixa pouco espaço para que a criança descubra do que gosta.
Brincadeiras simples por faixa etária
Não é preciso comprar nada especial. Algumas sugestões que usam o que a maioria das casas já tem:
- Até 2 anos: esconder e achar objetos debaixo de um pano, empilhar potes, encher e esvaziar caixas, ouvir e imitar sons de animais.
- De 3 a 5 anos: faz de conta com roupas velhas, massinha caseira, circuito com almofadas, separar peças por cor e tamanho, ouvir histórias e recontá-las.
- De 6 a 8 anos: jogos de tabuleiro e cartas, amarelinha, construção com sucata, caça ao tesouro com pistas escritas, receitas simples na cozinha.
- De 9 a 11 anos: jogos de estratégia, montagem de maquetes, criação de histórias em quadrinhos, experimentos caseiros de ciências, brincadeiras de rua com regras mais complexas.
O adulto pode participar, mas não precisa conduzir tudo. Às vezes, a melhor contribuição é oferecer tempo, espaço e materiais e observar.
Como a escola incorpora o brincar
Na educação infantil, o brincar é um dos eixos do currículo. A Base Nacional Comum Curricular, que orienta as escolas brasileiras, coloca as interações e a brincadeira como eixos estruturantes dessa etapa e inclui o direito de brincar entre os direitos de aprendizagem das crianças pequenas.
Nos anos iniciais do ensino fundamental, a brincadeira continua presente em jogos matemáticos, dramatizações, atividades de educação física e projetos em que os alunos constroem algo. Quando a família visita a escola ou participa de reuniões, pode perguntar como o brincar aparece na rotina da turma e quanto tempo livre as crianças têm no pátio.
Neste 12 de outubro, o convite é simples: reservar algumas horas para brincar junto, sem telas e sem pressa. É um presente que não se desgasta.
Antes de terminar
Desde quando existe o Dia das Crianças no Brasil? A data foi instituída pelo Decreto 4.867, de 5 de novembro de 1924, que fixou a comemoração em 12 de outubro. A proposta partiu do deputado federal Galdino do Valle Filho.
Brincar sozinho também é importante? Sim. Brincar sozinho desenvolve concentração, imaginação e autonomia. O ideal é que a criança tenha momentos de brincadeira individual e também com outras crianças e com adultos.
Jogos eletrônicos contam como brincar? Podem ter valor, especialmente os que exigem estratégia ou criação. Ainda assim, não substituem as brincadeiras com movimento, com objetos concretos e com outras pessoas, que continuam essenciais na infância.
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